A esquerda ficou com 127 deputados, a direita com 99. A esquerda parlamentar teve 54,4% dos votos, a direita 39,6%.
A preferência dos eleitores é clara, querem que a esquerda governe. Mas será que os três partidos se conseguem entender para viabilizar um governo de esquerda?
No discurso de vitória, Francisco Louçã disse que começava um novo dia para a esquerda portuguesa. Presumo que sabe que isso só acontecerá se a esquerda à esquerda do PS aceitar responsabilidades ao nível governativo, o que não acontece desde os governos provisórios do pós-25 de Abril. É que todas as outras soluções já não são novidade - o PS aliar-se ao CDS, ao PSD ou gerir um governo minoritário com acordos pontuais à direita e à esquerda.
Bem vistas as coisas, talvez não seja um novo dia para a esquerda portuguesa.
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segunda-feira, 28 de setembro de 2009
terça-feira, 1 de setembro de 2009
O dilema da esquerda
(Artigo de opinião publicado por HB no Diários de Notícias, em 29 de Agosto de 2009)
As esquerdas têm muito que as divide, mas têm em comum o mais importante: os valores fundamentais.
A ideia de que existe uma responsabilidade colectiva dos cidadãos, da sociedade, perante os restantes cidadãos é o ponto fulcral desses valores. E é também a linha divisória que distingue a direita e a esquerda.
É isso que faz com que a esquerda defenda o Estado social, que é, afinal, a forma de colectivamente nos responsabilizarmos pelo destino de todos, concretizando assim o princípio da solidariedade.
Por não partilhar deste valor, Manuela Ferreira Leite defendia há dias, na sua crónica no Expresso, que o que deve existir é mais caridade na sociedade. A caridade é um acto de generosidade (e muitas vezes não passa de um acto de alívio da consciência), não de responsabilidade.
A distinção não é apenas terminológica: solidariedade versus caridade. É profundamente ideológica, mas com claras consequências práticas, condicionando a forma como se olha para os mais desafortunados: como pessoas que têm direito a receber apoios sociais ou como pessoas a quem se faz a “bondade” de atribuir esses apoios.
Apesar de frequentemente o Bloco de Esquerda e o PCP acusarem o PS de fazer uma política de direita, a verdade é que reconhecem que todos pertencem ao mesmo campo ideológico, pois partilham os valores fundamentais.
Isto deveria tornar mais fácil a construção de entendimentos entre eles e é incompreensível que por vezes não consigam chegar a soluções de compromisso em que todos cedam um pouco.
O exemplo da Câmara de Lisboa, que Santana Lopes pode ganhar, é paradigmático. Mas as eleições legislativas serão o verdadeiro teste à capacidade da esquerda para se unir pelo bem comum.
Todas as pessoas de esquerda, mesmo aquelas que estão insatisfeitas com o PS, querem que este vença as legislativas. Umas querem que forme governo sozinho, outras preferem que faça acordos com os partidos à sua esquerda, mas todas querem que ganhe.
Porém, como constatámos nas eleições europeias e pelo que dizem as sondagens que têm sido publicadas, pode ser que isso não aconteça.
A maioria dos portugueses olha para estes dados com incredulidade: nem lhes passa pela cabeça que o PSD, fraco como está, possa ganhar.
Só que o PSD não precisa de conquistar muitos votos, basta-lhe conseguir mobilizar o seu eleitorado fiel. A convicção generalizada de que não ganhará encarregar-se-á de fazer o resto, levando a que muitas pessoas que poderiam votar no PS (o que fariam se achassem que o que estava em causa era ganhar o PS ou o PSD) votem no BE ou na CDU, com a ideia de que isso irá empurrar o PS para a esquerda.
Sabendo que bastará que o PSD tenha mais um voto do que o PS para Cavaco Silva convidar Manuela Ferreira Leite a formar governo, muitos eleitores de esquerda sentem estar perante um dilema: gostariam de votar à esquerda do PS para mostrar a este o caminho que deve seguir, mas se o fizerem há o risco de o governo ser de direita. Um governo PSD-CDS que, com o beneplácito do Presidente da República, reduzirá o papel do Estado social à perspectiva de caridade em que Manuela Ferreira Leite se inspira.
Será um dilema difícil de resolver para muitos, mas é fundamental que o seja em plena consciência das consequências de cada uma das opções, pois o que está em jogo é demasiado importante para permitir leviandades.
As esquerdas têm muito que as divide, mas têm em comum o mais importante: os valores fundamentais.
A ideia de que existe uma responsabilidade colectiva dos cidadãos, da sociedade, perante os restantes cidadãos é o ponto fulcral desses valores. E é também a linha divisória que distingue a direita e a esquerda.
É isso que faz com que a esquerda defenda o Estado social, que é, afinal, a forma de colectivamente nos responsabilizarmos pelo destino de todos, concretizando assim o princípio da solidariedade.
Por não partilhar deste valor, Manuela Ferreira Leite defendia há dias, na sua crónica no Expresso, que o que deve existir é mais caridade na sociedade. A caridade é um acto de generosidade (e muitas vezes não passa de um acto de alívio da consciência), não de responsabilidade.
A distinção não é apenas terminológica: solidariedade versus caridade. É profundamente ideológica, mas com claras consequências práticas, condicionando a forma como se olha para os mais desafortunados: como pessoas que têm direito a receber apoios sociais ou como pessoas a quem se faz a “bondade” de atribuir esses apoios.
Apesar de frequentemente o Bloco de Esquerda e o PCP acusarem o PS de fazer uma política de direita, a verdade é que reconhecem que todos pertencem ao mesmo campo ideológico, pois partilham os valores fundamentais.
Isto deveria tornar mais fácil a construção de entendimentos entre eles e é incompreensível que por vezes não consigam chegar a soluções de compromisso em que todos cedam um pouco.
O exemplo da Câmara de Lisboa, que Santana Lopes pode ganhar, é paradigmático. Mas as eleições legislativas serão o verdadeiro teste à capacidade da esquerda para se unir pelo bem comum.
Todas as pessoas de esquerda, mesmo aquelas que estão insatisfeitas com o PS, querem que este vença as legislativas. Umas querem que forme governo sozinho, outras preferem que faça acordos com os partidos à sua esquerda, mas todas querem que ganhe.
Porém, como constatámos nas eleições europeias e pelo que dizem as sondagens que têm sido publicadas, pode ser que isso não aconteça.
A maioria dos portugueses olha para estes dados com incredulidade: nem lhes passa pela cabeça que o PSD, fraco como está, possa ganhar.
Só que o PSD não precisa de conquistar muitos votos, basta-lhe conseguir mobilizar o seu eleitorado fiel. A convicção generalizada de que não ganhará encarregar-se-á de fazer o resto, levando a que muitas pessoas que poderiam votar no PS (o que fariam se achassem que o que estava em causa era ganhar o PS ou o PSD) votem no BE ou na CDU, com a ideia de que isso irá empurrar o PS para a esquerda.
Sabendo que bastará que o PSD tenha mais um voto do que o PS para Cavaco Silva convidar Manuela Ferreira Leite a formar governo, muitos eleitores de esquerda sentem estar perante um dilema: gostariam de votar à esquerda do PS para mostrar a este o caminho que deve seguir, mas se o fizerem há o risco de o governo ser de direita. Um governo PSD-CDS que, com o beneplácito do Presidente da República, reduzirá o papel do Estado social à perspectiva de caridade em que Manuela Ferreira Leite se inspira.
Será um dilema difícil de resolver para muitos, mas é fundamental que o seja em plena consciência das consequências de cada uma das opções, pois o que está em jogo é demasiado importante para permitir leviandades.
sexta-feira, 31 de julho de 2009
Memórias de Bad Godesberg
Não sendo caso único em política comparada, continuamos a interrogar-nos por que razão um País como Portugal, maioritariamente de esquerda, é por vezes governado pela direita. Resposta pronta e muito recordada nestes últimos dias: porque a esquerda em Portugal não se consegue unir.
Defeito da esquerda? Provavelmente será. A esquerda continua com problemas de identidade - sobretudo face à esquerda -, essencialmente porque os valores (a estrutura) são muito mais difíceis de adaptar à mudança do que os tiques e os leitmotivs movediços da verdade (a conjuntura) de alguma direita.
Ser de esquerda hoje deveria implicar assumir ideologicamente os valores da esquerda, sem pôr em causa a natureza capitalista do sistema. Aceitar o papel do conhecimento, da tecnologia, da inovação na chamada ‘nova economia’ (que já leva uns aninhos), mas moldando-a, pondo-a não ao serviço do consumidor, mas do cidadão, e evitando que se torne nova fonte de desigualdades. Desenvolvendo políticas por uma sociedade mais justa e mais equitativa, recusando discursos fatalistas do tipo 'quem me dera a mim ser rica, mas Alguém assim não o quis e como eu não me vou pôr a roubar, também nunca sairei desta minha condição', utilizando o papel do Estado para corrigir essas desigualdades.
E o curioso é que, apesar de ser a direita que leva o discurso fatalista-derrotista, existe uma certa impressão instalada (talvez por culpa de alguma esquerda) de que esquerda é imobilismo, de que com ela não haverá progresso palpável, de que o nosso País nunca sairá dos últimos lugares dos rankings europeus e de lugares medianos nos internacionais. E nós que inventámos a globalização! Nós que já partilhámos o mundo com os Espanhóis! A verdade é que, tanto à esquerda como à direita, Portugal ainda não foi capaz de dar resposta às principais tendências que atravessam hoje a nossa economia e a nossa sociedade.
Defeito da esquerda? Provavelmente será. A esquerda continua com problemas de identidade - sobretudo face à esquerda -, essencialmente porque os valores (a estrutura) são muito mais difíceis de adaptar à mudança do que os tiques e os leitmotivs movediços da verdade (a conjuntura) de alguma direita.
Ser de esquerda hoje deveria implicar assumir ideologicamente os valores da esquerda, sem pôr em causa a natureza capitalista do sistema. Aceitar o papel do conhecimento, da tecnologia, da inovação na chamada ‘nova economia’ (que já leva uns aninhos), mas moldando-a, pondo-a não ao serviço do consumidor, mas do cidadão, e evitando que se torne nova fonte de desigualdades. Desenvolvendo políticas por uma sociedade mais justa e mais equitativa, recusando discursos fatalistas do tipo 'quem me dera a mim ser rica, mas Alguém assim não o quis e como eu não me vou pôr a roubar, também nunca sairei desta minha condição', utilizando o papel do Estado para corrigir essas desigualdades.
E o curioso é que, apesar de ser a direita que leva o discurso fatalista-derrotista, existe uma certa impressão instalada (talvez por culpa de alguma esquerda) de que esquerda é imobilismo, de que com ela não haverá progresso palpável, de que o nosso País nunca sairá dos últimos lugares dos rankings europeus e de lugares medianos nos internacionais. E nós que inventámos a globalização! Nós que já partilhámos o mundo com os Espanhóis! A verdade é que, tanto à esquerda como à direita, Portugal ainda não foi capaz de dar resposta às principais tendências que atravessam hoje a nossa economia e a nossa sociedade.
À direita, adoptou-se o laissez-faire, laissez-passer (ou o rasgue-se, numa versão mais pró-activa), que é sempre útil quando não se quer gastar demasiado tempo a pensar em soluções, nem demasiado dinheiro a corrigir efeitos perversos e criadores de desigualdade. Nunca é de mais recordar que a crise actual é consequência destas atitudes.
À esquerda, critica-se a esquerda que renegou princípios supostamente basilares e a esquerda que aceita o sistema capitalista, descartando qualquer união e pondo assim em risco o Estado-providência.
Lá porque há vozes que não mudam desde os tempos de Argel, isso não deveria impedir os partidos de se adaptarem e responderem às novas realidades.
A escolha ainda é nossa.
Sondagem - Esquerda com mais de 50%, mas PSD pode ganhar
As esquerdas têm muito que as divide, mas têm em comum o mais importante: os valores fundamentais.
A ideia de que existe uma responsabilidade colectiva dos cidadãos, da sociedade, perante os restantes cidadãos é a linha divisória que distingue a direita da esquerda.
É isso que faz com que a esquerda defenda o estado social, que é, afinal, a forma de colectivamente nos responsabilizarmos pelo destino de todos. É o princípio da solidariedade.
É por não partilhar deste valor que Manuela Ferreira Leite defende que deve existir mais caridade na sociedade. A caridade é um acto de generosidade (apesar de muitas vezes não passar de um acto de alívio da consciência), não de responsabilidade.
O que distingue os partidos de esquerda são diferentes visões acerca do grau até onde vai essa responsabilidade e as formas de a concretizar.
PS, BE e PCP, apesar das divergências, fazem parte do mesmo campo.
Isto deveria tornar possível a criação de entendimentos à esquerda e é incompreensível a incapacidade de se chegar a situações de compromisso em que todos cedam um pouco. O exemplo da Câmara de Lisboa, que Santana Lopes pode ganhar, é paradigmático.
Mas esses acordos têm de ser pós eleitorais. Antes o PS tem de conseguir mais votos do que o PSD.
Mas não é atacando o BE ou o PCP que o vai conseguir, é afirmando os seus valores de esquerda, única forma de recuperar muitos potenciais abstencionistas e também alguns eleitores que, apesar de ideologicamente mais próximos do PS, poderão votar no BE com a ideia de que este poderá influenciar o próximo governo do PS, empurrando-o para a esquerda.
A ideia de que existe uma responsabilidade colectiva dos cidadãos, da sociedade, perante os restantes cidadãos é a linha divisória que distingue a direita da esquerda.
É isso que faz com que a esquerda defenda o estado social, que é, afinal, a forma de colectivamente nos responsabilizarmos pelo destino de todos. É o princípio da solidariedade.
É por não partilhar deste valor que Manuela Ferreira Leite defende que deve existir mais caridade na sociedade. A caridade é um acto de generosidade (apesar de muitas vezes não passar de um acto de alívio da consciência), não de responsabilidade.
O que distingue os partidos de esquerda são diferentes visões acerca do grau até onde vai essa responsabilidade e as formas de a concretizar.
PS, BE e PCP, apesar das divergências, fazem parte do mesmo campo.
Isto deveria tornar possível a criação de entendimentos à esquerda e é incompreensível a incapacidade de se chegar a situações de compromisso em que todos cedam um pouco. O exemplo da Câmara de Lisboa, que Santana Lopes pode ganhar, é paradigmático.
Mas esses acordos têm de ser pós eleitorais. Antes o PS tem de conseguir mais votos do que o PSD.
Mas não é atacando o BE ou o PCP que o vai conseguir, é afirmando os seus valores de esquerda, única forma de recuperar muitos potenciais abstencionistas e também alguns eleitores que, apesar de ideologicamente mais próximos do PS, poderão votar no BE com a ideia de que este poderá influenciar o próximo governo do PS, empurrando-o para a esquerda.
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